segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Entre papas e beijos

2011 não foi definitivamente o ano deste blog. Nem uma atualização sequer. Para mostrar que 2012 chegou fazendo a diferença vou postar um texto sobre o delicado e prazeroso momento da introdução dos alimentos ao bebê por volta dos seis meses de idade. 




Depois do susto inicial do bebê que caiu no nosso colo ao nascer encaramos um primeiro trimestre de dúvidas, adaptações e medos secretos que fazem a mãe acordar de noite (para conferir a respiração do  filhote), além claro dos campeões de audiência: sono e cansaço. O segundo trimestre chega com jeito de coisas se ajeitando. Vamos conhecendo cada vez mais o baby, que agora já se encaixa perfeitamente nos braços experientes da mãe e do pai. Conosco foi uma época de muito peito, amamentação se estabelecendo a valer, e a idéia de alimentação para o bebê era algo que beirava a órbita de plutão.

Mas eis que num passe de mágica, entre centenas de noites mal dormidas, chega o sexto mês. O início de uma nova fase para nós e nossos filhotes. Como toda novidade, tem tudo para nos deixar inseguras, com certo pé atrás. Nessa hora temos a orientação da pediatra, que surge como guia, mas que jamais deve soar como caminho estrito a seguir.  Aproveito a deixa para dizer que esse texto reúne informações que coletei ao longo de meses de pesquisa em nutrição para bebês na busca de um caminho pessoal para a alimentação da minha filha. As escolhas contidas aqui fazem parte do meu processo de crenças e idéias a respeito da saúde e do papel da alimentação na manutenção de um corpo saudável. Nessa busca conheci alguém que de longe me ajudou e muito: Sônia Hirsch.

***

Quando o bebê faz seis meses, começa uma sensação de que é agora ou nunca. Gostaria de dizer às mães que relaxem nesse momento. A introdução alimentar deve ser feita de maneira lenta e prazerosa, como trata-se de apresentar os alimentos e ir formando o paladar da criança, melhor que seja feita aos poucos enquanto a casa vai adaptando-se à nova rotina. Insituir de uma hora para outra um ritmo novo pode confundir os pais, o bebê, a babá, os avós. Enfim, o que poderia ser legal vai virar um stress só. Aqui em casa eu precisei de um tempo para me organizar. Anita começou a provar alimentos com oito meses, e foi tudo bem, no tempo dela. É legal neste momento perceber a demanda do bebê por novidades, para equilibrar a demanda dos pais com a demanda do bebê.
Existem diversas correntes pediátricas mundo afora que orientam, de maneira diferente, a introdução dos alimentos, junto com a orientação da pediatra de anita, que é naturalista, fiz um mix de diversas correntes e montei o nosso esquema. 

Ao que interessa:

Comecei oferecendo uma fruta a cada dois dias. Evitava as frutas ácidas, no mais, oferecia quase tudo. Depois passei a oferecer uma fruta de manhã e uma verdura (cozida no vapor) pura no almoço. Suco de manhã. Achei bem interessante essa orientação porque podemos mapear as reações do baby a cada alimento (desde reações alérgicas, a produção de gases) e também porque vamos formando o paladar aos poucos. 

Nessa fase inicial as frutas e verduras não "sustentam" o bebê, que ainda mantém sua rotina de leite materno. O ideal é que o momento da apresentação dos alimentos seja um momento de prazer para o bebê e a mãe ou pai, que eles possam explorar a novidade com as mãos ou do jeito mais esquisito que lhe interessar. Ainda não há que contar colheradas nem ficar frustrada à negativas do bebê. Ele não tem obrigação de comer nada, não vale forçar.

Em menos de um mês, parti para a rotina de introdução. Com direito a sopinha (mistura de duas verduras com temperos) e sucos. Olha como ficou nosso esquema aos 8 meses:

06:00 – leite materno

08:00 – suco de fruta: lima, laranja-lima, água de coco, melão, melancia, manga, goiaba (120 a 160 ml)

10:00 – papinha de fruta: banana-prata, mamão, pera, maçã, abacate.
(Dica:  cozinhar no vapor a maçã e a pera até soltarem a casca. Fica mais docinha e é só amassar.)

12:00 – leite materno

15:00 – sopa: verdura + cebola + tempero verde + 1 folha verde.
modo de preparo:
Cozinhar 2 verduras no vapor. Refogar cebola e tempero em água, colocar as verduras junto, refogando. Quando desligar o fogo, colocar a folha verde e tampar. A idéia é que a folha cozinhe muito pouco no vapor. Depois passar tudo na peneira.

1.     abóbora + (chuchu ou quiabo)
2.     cenoura + (madioquinha ou batata doce)
3.     beterraba + (aipim ou inhame)
4.      
Folhas verdes: couve, espinafre, lingual de vaca, agrião, rúcula

17:00 – leite materno

20:00 – leite materno

Oferecer água a cada 1 hora no dia.

Uma ótima dica para oferecer inhame, mandioquinha e outros legumes mais secos, é amassar com leite materno. Pode parecer esquisito, mas fazia um sucesso retumbante.

Aos poucos fomos variando as papinhas, acrescentando novos sabores.

Papinhas salgadas – 12:00
cenoura + batata doce + alecrim + agrião
abóbora + xuxu + hortelã + espinafre
beterraba + inhame + cebolinha + espinafre
mandioquinha + quiabo + salsinha + agrião
aipim + abobora + hortelã + rucula

Dica preciosa da pediatra: Ralar castanha do pará nas frutas amassadas. Rica em selênio e outros micronutrientes importantes para nós, para os bebês, um pequeno tesouro.

E perto dos 10 meses foi acontecendo a fase de transição. Frutas ácidas liberadas com apoio do melaço de cana para adoçar. Agora ela almoçava e jantava. Foram introduzidos os cereais (arroz integral, macarrão integral) feijão verde, ervilhas frescas, lentilha, grão de bico, milho verde, etc. As proteínas vegetais vieram com força: tofu, cogumelos, algas marinhas. Aqui, mesmo não sendo vegetarianos fizemos a opção de resguardar a pequena da carne vermelha, mas em outro post explico as razões. Maravilhoso foi descobrir que as algas marinhas possuem maior concentração de proteínas e nutrientes do que o peixe, única carne que introduzimos no paladar da pequena. E o peixe veio acompanhado do seu melhor amigo, o pirão. uhmmmm era um sucesso.

Mas daqui a pouco continuo escrevendo até chegar no cardápio do casamento da menina. Calma. A idéia era falar do momento de introdução alimentar. Uma vez li que tudo que os bebês consomem, em comparação a um adulto fazem uma diferença muito maior porque o seu volume de massa é muito menor, então um biscoito recheado faz mal a um adulto e faz muito, muito mal a um bebê. No primeiro ano de vida assumi  posturas que considero muito importante na preservação da saúde do bebê. Lá vai:

NUNCA, OU NEVERLAND

INDUSTRIALIZADOS - nada de danones, sucos prontos, biscoitos coloridos

AÇÚCAR BRANCO - nunca, jamais. acho inclusive maldade. quem quiser saber mais sobre os malefícios do açúcar refinado para o organismo, basta dar um giro rápido pela net.

FARINHA BRANCA - sempre optei (e ainda hoje) pela farinha integral, rica em nutrientes, ao contrário da farinha branca que além de não alimentar favorece a formação de quadros de debilidade do organismo.


MUDANÇA DE HÁBITO:

ORGÂNICOS - O Brasil possui uma triste marca de campeão mundial de utilização de agrotóxicos. Muitas substâncias, comprovadamente relacionadas a casos de câncer e proibidas em boa parte do mundo, aqui são despejadas diariamente sobre as mais diversas lavouras por conta de uma legislação permissiva que favorece os grandes produtores agrícolas. Esse é um ponto que me mobiliza. Quando anita começou a comer, dava um jeito (pagava mais caro) mas oferecia apenas orgânicos. Hoje, já criamos o hábito de comprar um pouco mais distante de casa, mas garantimos para todos alimentos com menor índice de química, da braba por sinal.


A idéia desse texto é servir como inspiração para que cada um desenvolva sua forma de alimentar o filhote. Fiz especialmente para Taise Andrade e Gabriela Leite, irmãs queridas que encaram pela primeira vez colheres, pratinhos, peneiras e babadores. Para todas uma dica: relaxem que a tendência é tudo dar certo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Essas crianças!


Muito bom ver os filhos crescendo, ver suas personalidades se consolidando. Tão bom olhar com o olhar da criança. Hoje liguei para o pai de Ian para falar sobre o cartão e pedi um numero de telefone a ele.  Ian ficou com o telefone e o pai pedia pra ele me passar os números. Incrivel! Era assim: 0800, e Ian zero, ossento, 775, sete, sete, cinco , 626, seis seis oito oito oito, nove, onze,  cinco cinco. Rimos tanto! Ian traquinando com os numeros, nos fazendo rir com uma brincadeira, nos tornando cúmplices, eu e seu pai, de sua maturação sobre as coisas.

E Anita dançando em uma roda de samba?! 

Quem entrou na roda foi uma boneca
Foi uma boneca, foi uma boneca
Quem entrou na roda foi uma boneca
Foi uma boneca, foi uma boneca 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os tempos de hoje

Notícias terríveis hoje: um assalto violento, o roubo de um equipamento em uma das escolas em que trabalho. Em Passione, o assassinato brutal de um personagem troglodita. Os noticiários nem se fala. Parecemos cães farejando o perigo. A tv, aquele equipamento que na maior parte dos lares fica ligado da hora em que se acorda a hora em que se vai dormir, compõe as informações do dia. Para aqueles pais que podem ter o canal fechado, e que mesmo com uma orientação mais sensitiva da vida recorrem a tão incrível entretenimento, nem o Discovery Kids se salva: tem um comercial da pegeot, para os pequenos, é claro. Já vejo Ian falando que eu devia ter um X300 da pegeout. Somos todos batmans, homens aranhas, princesas em castelos de pedra. Temos dois programas brasileiros na programação desse canal: Peixonauta e Meu Amigãozão. Estamos em prédios, alguns em casa, mas sempre cercados, poucas crianças ao redor, poucas brincadeiras de rua. Temos que estar sempre alertas tentando ensiná-los a se defenderem sozinhos. Me pergunto como fazê-lo na solidão? Parece que as gerações vão piorando, talvez porque vão piorando os educadores, os cuidadores. Temos que criar nossos filhos para serem multiplicadores do amor. Aliás, qualquer criança que nos esteja ao alcance do coração.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A escola de Ian

Quando Ian fez 02 anos já estávamos nesse movimento de encontrar uma escola para ele que fosse de acordo com as nossas posses, perto de casa e acolhedora. Na gente nem bateu aquela dúvida de colocar com 02 ou 03 anos, pois moro num prédio que não tem crianças e tenho poucas amigas com filhos, então colocar na escola seria uma maneira de coloca-lo em contato com outras crianças. Aqui perto de casa tem três. Dessas uma era muito cara, o dobro das outras. Das outras uma era só concreto, uma energia fria e a outra me fez recordar os primórdios da minha infância, na escola Jr, uma das poucas lembranças que mantive dessa época. Era uma escola de fundo de quintal, a diretora, que era a dona, morava em cima. A escola tinha 20 anos. Uma garota do nosso edifício estudou lá e tinha excelentes lembranças. A professora substituta, pois a principal estava grávida e teria o filho no decorrer do ano, também já tinha estudado lá. O ambiente era pequeno, improvisado, mas muito pessoal, com a cara de alguém que zela pelo que gosta. (Me parece que a escola é a vida dessa diretora). Gostei do ambiente, de como os espaços eram divididos, o preço era bom e era do lado de casa. Nem titubeamos. A adaptação de Ian não foi fácil. Ele era muito apegado a nós e estava desmamando. Aprendi ali que não deve se fazer grandes mudanças ao mesmo tempo. Tudo se torna mais difícil. Eu estava filmando um longa metragem, com mais de 12 horas de trabalho e fui orientada a não ficar muito tempo lá. Então, durante a primeira semana eu levava ele e ficava até umas 14:30. Ninha, minha fiel escudeira, pegaria às 16 hs. Ian chorava sempre e continuou chorando no ano seguinte. Era muito estranho. Nunca queria ir, mas quando voltava falava que tinha adorado e relatava coisas que tinha acontecido. Mas não queria ir pra escola. Não gostava da farda. Tudo era chato. Em casa era melhor. Então, comecei a prestar atenção, a frequentar mais a escola, a observar e percebi que a escola tinha uma postura muito diferente da que levamos em casa, da educação que propomos a Ian. E na verdade, parece não haver empatia dele com a escola. Conversei muito com minha mães sobre isso, não sei porque não o fiz antes, e ela também acha que hoje, para Ian que tem 03 anos, a escola oferece pouco a ele. Na verdade é daquele tipo de escola que quer enquadrar o aluno na sua rotina e não o contrário. Deixa de aproveitar a expressão da criança para potencializar o conhecimento e o desenvolvimento das habilidades. Não é que seja uma escola ruim, mas não é essa parceria que quero para a educação de Ian. Ele já sabe escrever o nome dele. É incrível, mas não vejo porque ele precise. Sabe das três letras, das quais ele compara com A de Amor, I de Índio e N de Navio. Reconhece essas letras em outras palavras, mas coloca no mesmo lugar os nomes e os números. Gosto de algumas propostas da escola, como o teatro que os pais fazem para os filhos, esse ano fui a galinha amarela. Mas quero que Ian estude em uma escola que tenha outro comportamento, que pense na alimentação, nas atividades, na interpelação junto as crianças, na noção de autonomia e de autoritarismo. Quando fomos falar com a diretora sobre essa angustia dele em relação a escola, ela atribuiu a nossa separação. Pronto, qual é o próximo problema? Uma leitura equivocada e unilateral das coisas, universalizando questões tão pessoais. Fiquei só ouvindo. Cheguei a refleti, mas pensei: paciência, já estamos no fim*.

* vamos tentar uma nova escola.

P.S1: Instigada por Tenille resolvi reavivar essa página, talvez seja o tempo livre (à noite) de quem mora sozinha com o filho de 03 anos, meu companheirinho. Ou talvez o desejo de escrever para me distrair. Ou apenas um relato, um arquivo para a memória. Com certeza é a maternagem e é o meu filho Ian que me possibilita ser mãe. Mamãe.

P.S2: Estamos muito colados com Ian nessa coisa da escola. Depois dessa conversa, eles flexibilizaram mais. Ian não vai de farda, falta de vez em quando e como tudo ficou mais frouxo ele já se conforma em ir para escola, arrisco a dizer que até gosta, sempre com reticências, mas não é mais o mesmo suplicio. Sinto que isso seja um amadurecimento dele.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Enquanto o sono não vem

Esse blog surgiu do desejo de compartilhar as informações, angústias, descobertas e maravilhas da maternidade. Porque quando nosso filhote vem com uma coisa nova queremos mais é contar pro mundo e quando o bicho pega nada melhor do que ouvir de outra mãe "isso é normal".
Minhas companheiras de blog, Uli e Carol andam abandonando esse espaço (devem estar correndo atrás dos meninos que não páram quietos). Enquanto elas não voltam vou usar esse espaço para minha terapia do sono. Da falta dele na verdade.

Anita tem um ano e dois meses e ainda hoje (como grande parte das crianças que eu conheço) ainda acorda de madrugada para procurar o colo quentinho da mamãe. No nosso caso, o peitinho da mamãe, já que ela ainda mama e se eu não ofereço o peito ela fica com a boquinha aberta no ar... ai meu deus chega dá uma dor (apesar de ser lindinho). Claro que nesse processo foram muitas as noites em que me bateu um profundo desespero de achar que nunca mais vou conseguir dormir 5 horas consecutivas, tiveram noites de extremo cansaço, em que eu achava que iria sucumbir (de onde tiramos forças, afinal)?

Os chás que já tentei: camomila (dou até banho com esse), erva-doce, cidreira, mulungu, maracujá....

No processo de auxiliar minha filha a conquistar autonomia no sono algumas coisas nunca me passaram pela cabeça: desmamar ou dar mingau para ela "sustentar o sono". Eu não acredito nisso. O que faz ela acordar não é fome, tenho certeza. Não sendo fome, o peito é o melhor lugar para aplacar esse desejo ou mesmo falta. Bom, no meu limiar do cansaço vou aguentando. Fiquei pensando que perto dos dois anos é seguro que ela comece a dormir a noite toda. Depois disso teria a vida inteira de noites bem dormidas... Mas pensando bem, aos três anos tem a escola, depois vem o desfralde, a linguagem, novos desafios que farão com que ela busque sua mãe de dia e de noite.

Acordada uma madrugada dessas lembrei de uma episódio da minha adolescência. Alta madrugada, eu na casa de uma amiga numa festinha quando toca o telefone da casa com minha mãe desesperada do outro lado (na época o normal era adolescente não ter celular). O fato dela ter ligado para casa da minha amiga me fez lembrar que eu não tinha avisado que não voltaria para casa logo depois da aula. Se ela não sabia onde eu estava, devia ter ligado para mais meia dúzia de mães de meus colegas para me localizar. Corri de volta para casa.
Quando cheguei encontrei minha mãe no portão e nem bem desci do carro ela me agarrou em abraços, agradecendo aos céus o fato de estar tudo bem comigo. O que ela sentiu naquela noite enquanto me procurava ainda é um mistério para mim.

Pensar que minha filha continuará tirando meu sono vida afora não me conforta muito, mas vou aproveitar bem enquanto o mais distante que ela vai é até a porta de casa, porque essa ela ainda não consegue abrir.





domingo, 18 de abril de 2010

1 ano

Pronto. Um ano passou tão depressa que às vezes ainda sinto saudades da barriga. Que ano louco o primeiro da vida do nosso filho. Se antes meu corpo era só o ninho, aos poucos volta a ser o que era antes da mulher-mãe. A verdade é que para mim está sendo um longo aprendizado esse de ordenar internamente a necessidade de cada coisa e o lugar delas. Primeiro a necessidade louca de cuidar só do filho, depois a vontade de voltar a construir a individualidade perdida, de resgatar o romance já que o marido fica prestes a se tornar irmão. No meio disso tem o trabalho, as novidades da vida com filho com suas comidinhas orgânicas e no horário. Pra não falar de babá, creche, noites sem dormir... enfim, as coisas práticas da nova vida. Mas confesso que não posso me queixar. Esse ano passou depressa e cada fase da pequena filhota deixou saudade. A tranquilidade do temperamento dela adoça nossos dias e trouxe à casa uma paz que nunca teve.

2009 foi um ano de muito colo, peito o tempo todo, carinhos escorrendo pelos quatro cantos da casa. Amamentar virou um vício mais meu do que dela, se é que isso é possível. Lembro de minha mãe me falando sobre a intuição que nos faz a melhor cuidadora dos nossos bebês, e fico feliz de comprovar que ter filho é abrir-se ao desconhecido, aos mistérios que fazem da vida, movimento.

Filho é um pulo no abismo, é perpetuar-se.

Importante texto sobre sono dos bebês

A natureza do sono do bebê

Por Andréia Mortensen

Após a leitura do artigo "O mau sono do filho pode ser culpa dos pais", publicado no site Guia do bebê em 03/03/2010, gostaria de fazer alguns comentários.

O artigo ressaltou que a raiz de muitos problemas de sono estaria no fato de os pais auxiliarem seus bebês a adormecerem e concluiu que eles deveriam ser treinados a fazê-lo sozinhos.

Tenho algumas críticas a esse raciocínio:

PRIMEIRO, é importante entender que essa inabilidade do bebê de adormecer sozinho, sem ajuda, é de sua natureza. Antes de 2 ou 3 anos não há maturidade neurológica para tal. Então, ao 'treinar' um bebê a adormecer sozinho estamos passando por cima de sua natureza do desenvolvimento, que acontece em fases, em um aprendizado longo e complexo. A matéria parte do princípio de que é preciso condicionar os bebês a não solicitarem aconchego à noite mesmo quando tivessem necessidade, como se uma exigência para um bom sono bom seria apressar a independência do bebê.

SEGUNDO, as funções do choro, do embalo e do apego devem ser levadas em consideração.

choro - No início da vida, o choro tem um amplo espectro de funções: bebês choram por fome, necessidade de contato físico, frustração, outras necessidades físicas e emocionais. O choro de frustração não pode ser considerado falso por não apresentar uma razão física visível. Experimentos clássicos mostraram que simplesmente pegar o bebê no colo funciona perfeitamente como uma forma de parar o choro, ainda que eles estivessem famintos (1,2). O choro atendido pelos pais tem importância fundamental para a formação de vínculos e estabelecimento do laço afetivo familiar (3).

O embalo - O bebê precisa ter confiança máxima, conforto, segurança e outros sentimentos mais complexos em quem lhe está adormecendo, que levam ao relaxamento relaxamento físico e mental. A mãe acalenta o bebê com um embalo ritmado, lento, afagos leves e ao som de uma melodia delicada e sussurrante de sua voz, e com isso o bebê se entrega e adormece. Deve-se lembrar também que embalar o bebê lhe confere estímulos sensoriais necessários ao estabelecimento do tônus muscular.

O apego - O colo e o apego, em conjunto com o embalo e a amamentação, são fatores críticos para a continuação do desenvolvimento do bebê fora do útero materno. O bebê humano nasce em desamparo e dependência quase absoluta e necessita ser visto e ouvido por sua mãe ou por outra figura de apego primário, de quem procura e espera uma relação recíproca, na qual seus próprios sentimentos iniciais são retribuídos (4). O bebê 'come amor' como se fosse comida e também a sensação de estar rodeado, contido, visto e seguro (5).

Uma criança que se agarra a um adulto não está sendo mimada nem querendo chamar atenção, mas sim está tentando reduzir o seu alto grau de excitação física e seus elevados níveis de substâncias químicas estressantes, como o cortisol e, ao mesmo tempo, tenta ativar as compostos químicos cerebrais que produzem sentimentos de bem-estar, como a ocitocina. Sua mãe é sua 'base neuroquímica' infalível.

Obrigar a criança a ser independente antes de ela estar geneticamente madura para tal é uma provável causa do surgimento de um apego prolongado, enquanto que a criança que recebeu o cuidado amoroso protetor com sua dependência natural reconhecida estará apta a aperfeiçoar suas potencialidades primitivas de crescer, integrar-se, adaptar-se às exigências do ambiente, desenvolver outras relações interpessoais, habilidades sociais, de convivência e aceitação do outro e de preservar a vida.

TERCEIRO, técnicas conhecidas como 'choro controlado' e variações em que o choro do bebê é ignorado não oferecem garantias de noites de sono ininterruptas. Tal fato foi, inclusive, revelado em uma pesquisa recente na qual, apesar de 69% dos pais acreditarem que essa técnica funcionaria, somente 1/6 dos pais disseram que ela eliminou completamente os despertares noturnos. (6)

Ainda, pesquisas revelam que quando a criança cumpre um ano, as mães que haviam atendido rapidamente o seu choro, tinham filhos que choravam muito menos que aquelas que haviam optado por deixá-los chorar (7).

QUARTO, é mito que bebês que são treinados a dormir a noite toda nunca mais acordariam. O bebê muda constantemente conforme seu desenvolvimento e isso interfere em seu sono. Então, é falaciosa a prescrição de soluções eternas para que a criança dormir a noite toda, porque sempre que há mudanças em sua vida (como entrada em escolinha ou mudança de professora, um atrito com amigo na escola, mudança para nova casa, férias, doença, saltos de desenvolvimento e outros) há provavelmente uma causa emocional para a mudança no padrão de sono. Nesses casos, é hora de direcionar todas as atenções a seu filho para que se sinta emocionalmente seguro de as boas noites de sono voltarão.

QUINTO, a pesquisa citada (publicada originalmente em 2009 na revista "Child Development") tem falhas metodológicas e erros de abordagem que não foram citados. Somente 85 famílias foram entrevistadas e isso torna a amostragem não significativa. Além disso, o texto não deixa claro qual foi a porcentagem real de casais que se adequaram às conclusões do grupo (se a margem de diferença for muito baixa, o estudo deve ser refeito com grupo de amostragem mais amplo).

Os próprios autores concluem no final do artigo que, pelo fato de os dados serem baseados em amostras não-clínicas, todas as implicações clínicas devem ser melhor examinadas adiante, em condições clinicas. Os autores ainda discutem que os dados devem ser melhor explorados em outras culturas e em amostras com mais variados status socioeconômicos para testar sua valia em ambientes que tenham diferentes expectativas, filosofias e valores em se tratando de práticas de educação dos filhos em geral e do sono dos bebês em particular.

Portanto, a abordagem dos pesquisadores passou por uma linha de pensamento que não considera diferentes culturas, crenças e individualidades. Os pesquisadores concluem que todas essas são características limitam a generalização dos resultados. Ainda mais, as associações relatadas entre o sono e cognições maternas foram baseadas em percepções subjetivas e podem ter sido influenciadas pela variância do método compartilhado.

Esses aspectos não foram incluídos no artigo que, portanto, não relatou com acuidade o que foi descrito na pesquisa.

FINALMENTE, o artigo publicado continua a oferecer problemas na parte 'Avisos' de hábitos possivelmente perniciosos ao sono.

Alimentá-lo fora do horário? Não é possível, posto que o bebê pequeno precisa mamar em livre demanda para garantir que tenha todas suas necessidades de nutrição e também de sucção não nutritiva saciados. Não há conselho mais prejudicial para o estabelecimento e continuidade da amamentação e, consequentemente, para a saúde dos bebês, do que amamentar com horários predeterminados.

O artigo condena que o bebê durma com seus pais. As conclusões do artigo não consideram bases antropológicas, culturais e tampouco fisiológicas.

O co-leito ou cama compartilhada é algo praticado desde os primórdios da raça humana. A necessidade do bebê humano de estar em contato físico com a mãe vem dos tempos em que o ambiente era perigoso e a sobrevivência dependia de contato direto com sua mãe. Somos parte dessa descendência. Além disso, a cama compartilhada é comprovadamente de auxílio para estabelecimento da amamentação e tem efeitos positivos no estabelecimento de ritmos respiratórios, na regulação de padrões de sono, da taxa metabólica, de níveis hormonais, da produção enzimática (ajudando na habilidade do bebê de lutar contra doenças), na taxa de batimentos cardíacos e no sistema imune (8, 9, 10).

Pode também ajudar a atender necessidades emocionais do bebê e da criança mais facilmente, levando em consideração os picos de crescimento, a crise de ansiedade de separação que se inicia por volta dos 8 meses e outras fases que vão além do primeiro e segundo ano de vida, nas quais o contato íntimo com a mãe faz toda a diferença.

Portanto, ter um conceito previamente fechado, contrário a um arranjo de sono, pode dificultar a família a lidar com as necessidades que o bebê e a criança manifestem.

ALGUMAS RECOMENDAÇÕES QUE EU DARIA AOS PAIS SERIAM:

- Investigue em que lugar o bebê dorme melhor: na mesma cama com os pais, no berço em outro quarto, no berço no mesmo quarto porém distante da cama do casal, no berço no mesmo quarto junto à cama? E onde você dorme melhor? Finalmente, onde você gostaria que seu bebê dormisse? A gama de variações possíveis é grande, pode-se tentar alguns dos arranjos até descobrir como toda a família dorme melhor.

- Alterne maneiras de auxiliar o bebê a adormecer, nem sempre mamando (a não ser nas primeiras semanas quando é impossível manter um bebê acordado após as mamadas), nem sempre embalando, às vezes peça para papai entrar na jogada! Ao aprender que pode adormecer de várias formas, é menos provável que o bebê faça associações fortes de sono que podem levá-lo a requerê-las no meio da noite.

- Reconheça os sinais de sono do bebê: esfregar olhos, bocejar, diminuir atividades, ficar irritado, olhar parado, chorar, em alguns casos, gritar. Crie rotinas de acordo com o cansaço e a necessidade de sono da criança (que vai mudando conforme a maturidade), ou seja, uma sequência simples de eventos que ajude a criança a identificar que a hora do sono está por vir.
- As sonecas são importantíssimas para o desenvolvimento do bebê e para o sono noturno. Ao contrário do que se pode pensar, um bebê exausto luta contra o sono e tem dificuldades de permanecer adormecido. Para serem restauradoras, as sonecas diurnas devem durar pelo menos 1 hora, em média, para bebês maiores de 4 meses. Se o bebê não dorme espontaneamente esse tempo e acorda aborrecido, precisa de ajuda para prolongar as sonecas. Você pode usar um sling e deixar o bebê dormir nele. Se ele dorme em berço ou cama, preste atenção: quando acordar, tente colocá-lo para dormir novamente o mais rápido possível. Às vezes, ficar por perto para intervir antes de o bebê acordar completamente é aconselhável. Esse processo pode ser demorado, mas vale a pena, pois o bebê vai aprendendo a emendar ciclos de sono e tirar sonecas mais longas, que são importantes para um bom sono noturno também.

Referências

1- Wolff, P.H. 1987. The development of behavioral states and the expression of emotion in early infancy: New proposals for investigation. Chicago: University of Chicago Press. (1987).
2- Our Babies, Ourselves. How biology and Culture shape the way we parent. Meredith F. Small. Anchor Books. (1998).
3- Tocar: o Significado Humano da Pele. Ashley Montagu. Ed. Summus. (1988).
4- Bowlby, J. (1969,1982) Attachment [Vol. 1 of Attachment and Loss]. London: Hogarth Press; New York, Basic Books; Harmondsworth, UK: Penguin (1971).
5- Babies and Their Mothers : D.W. Winnicott. Merloyd Lawrence. ( 1996).
6- Lynn Loutzenhiser, Regina Leader-Post. Have you been awake all night, trying desperately to put your child back to sleep, or does your little one sleep like a baby? The study is being done in collaboration with a contributing editor to Today's Parent magazine. The survey can be found at http://uregina.ca/~loutzlyn/Research.html. (2009).
7- Margot Sunderland, The science of parenting. DK Publishing Inc. (2006).
8-J. McKenna et al., Bedsharing Promotes Breastfeeding, Pediatrics 100, no. 2: 214-219. (1997).
9- J. McKenna et al., "Sleep and Arousal Patterns of Co-Sleeping Human Mother-Infant Pairs: A Preliminary Physiological Study with Implications for the Study of the Sudden Infant Death Syndrome (SIDS)," American Journal of Physical Anthropology 82, no. 3, 331-347 (1990).
10- A Reasonable Sleep. Evolution suggests that if we sleep with our babies, we might help some of them escape sudden infant death syndrome. By Meredith F. Small DISCOVER 13:4. Medicine. (1992).

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sobre a dependência e a maternagem



Nossa função como pais, é entender e honrar a natureza de dependência na criança. Dependência, insegurança, e fraqueza são estados naturais para a criança. A bem da verdade, estes são estados naturais para todos nós, mas para as crianças - as crianças especialmente jovens - são condições predominantes. E eles serão superados. Da mesma maneira que nós deixamos de engatinhar e começamos a andar, deixamos de balbuciar e começamos a falar, passamos da condição assexuada da infância para a sexualidade da adolescência, nós atingimos nosso fins. Como humanos, nós nos movemos da fraqueza para a força. Nós passamos da incerteza ao domínio. Enquanto nós nos recusarmos reconhecer as fases que vem antes do domínio, estaremos ensinamos para nossas crianças a odiar e desconfiar de sua própria fraqueza, e os introduzimos numa vida cheia de tentativas de reintegrar as suas personalidades.



Trecho de um texto de Peggy O'Mara, Editora da revista Mothering (Maternagem)